Nem sempre sou tudo isso (e ainda bem)

Não sei se isto acontece com toda a gente. Imagino que sim, em maior ou menor grau. Mas, no meu caso, há uma espécie de desfasamento curioso entre aquilo que sou e aquilo que, por vezes, os outros parecem ver em mim.

Sou, ou pelo menos tento ser, um tipo organizado, metódico, paciente, reflexivo, empático e esforçado. Digo "tento" porque, apesar de todas estas palavras soarem bem quando alinhadas assim, nenhuma delas me transforma, por si só, numa criatura imune ao cansaço, à impaciência, à dúvida ou ao desgaste. Continuo a ser humano — e ainda bem. E isso, convenhamos, acarreta as inerentes limitações dessa minha condição.

O problema — se é que lhe podemos chamar problema — é que, muitas vezes, a leitura exterior, ou a dos outros, parece ampliar em excesso estas características. Como se, por ser organizado, tivesse também de ser infalível. Como se, por ser paciente, nunca me pudesse faltar a paciência. Como se, por ser reflexivo, tivesse sempre respostas para tudo e, ainda por cima, certas. Como se, por ser empático, estivesse automaticamente disponível para tudo e para todos. Como se, por me reconhecerem esforço, me pudessem exigir resiliência sem fim.

E não. Não sou tudo isso. Nem de perto. E talvez o mais honesto seja dizer precisamente isto: não consigo ser, a tempo inteiro, a melhor versão de cada uma destas qualidades. Há dias em que a organização vacila, o método se atrasa, a paciência escasseia, a reflexão emperra e a empatia precisa de se recolher um pouco para respirar fundo. Não por falta de vontade. Apenas porque sou feito de limites, como qualquer outra pessoa.

Há uma estranha pressão associada à ideia de ser "a pessoa que resolve", "a pessoa que aguenta", "a pessoa que percebe" ou "a pessoa que dá conta do recado". E, sem dar por isso, é fácil começar a confundir capacidade com obrigação, competência com disponibilidade ilimitada, serenidade com invulnerabilidade. Talvez seja isso mesmo o que mais me inquieta: perceber que, quando alguém nos vê de determinada forma, pode começar a esperar de nós não apenas o que conseguimos fazer, mas tudo o que seria conveniente que conseguíssemos.


Ora, isso não é realista. E, mais cedo ou mais tarde, cobra-se. Cobra-se na forma do cansaço, da saturação, da vontade de desaparecer um pouco, de não ter de corresponder, de não ter de explicar sempre por que razão hoje não consigo ser tão organizado, paciente, disponível ou forte como no dia anterior.

O que talvez as pessoas não vejam — ou não queiram ver — é que estas qualidades não existem em estado puro em ninguém. Não são medalhas. São, quando muito, disposições. Tendências. Exercícios. E exercícios, como sabemos, exigem repetição, falha, pausa e recomeço. Ninguém é organizado por decreto, nem paciente por milagre, nem empático por obrigação moral permanente. Tudo isso se trabalha. Tudo isso oscila. Tudo isso cansa. No fundo, tudo isso é fado, como tão bem cantava a nossa Amália Rodrigues.

Talvez seja por isso que, cada vez mais, valorizo a possibilidade de ser lido com alguma justiça, na minha exata medida e condição humana. Não como alguém acima do comum, mas como alguém dentro do comum, com momentos bons e momentos maus, lucidez e distração, generosidade e exaustão. Em suma, alguém que tenta. E, quando muito, isso já é bastante — ou devia ser, digo eu.

No fundo, o que me interessa não é desfazer a imagem que os outros possam ter de mim. É apenas lembrar que nenhuma imagem deve ser confundida com a totalidade do que somos. Ser organizado não me torna perfeito. Ser paciente não me torna inesgotável. Ser reflexivo não me torna um oráculo. Ser empático não me torna disponível para tudo. E ser esforçado não me torna invencível.

Sou aquilo que consigo ser, no melhor dos dias, e também aquilo que preciso de corrigir, de interromper e de recalibrar nos outros dias menos bons. Talvez seja aí, precisamente, que mora uma certa verdade mais confortável: não a de ser extraordinário, mas a de ser apenas alguém que continua a tentar habitar-se com algum equilíbrio.

Tenho dito!

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