E depois do medo?
Há uma coisa que ninguém nos ensina diretamente, mas que vamos aprendendo à força, à custa de noites mal dormidas e de decisões adiadas vezes a mais: o medo não desaparece. Não é um estado transitório que se resolve com o tempo, como a gripe ou o cansaço acumulado. O medo instala-se. Habitua-se à nossa companhia. Aprende os nossos ritmos, sabe quando somos mais vulneráveis, aparece sempre que estamos prestes a fazer algo que nos importa verdadeiramente. E é precisamente por isso que, durante tanto tempo, confundi o medo com um aviso interior ou do universo, quem sabe: a sensação de que algo estava errado, de que eu não estava pronto, de que o mundo lá fora não era para mim.
Demorei a perceber que era o contrário.
O medo, quando é genuíno, quando não é produto da cobardia ou da preguiça disfarçada de prudência, é um sinal de que algo nos interpela de verdade. Não temos medo do que nos é indiferente. Não trememos perante aquilo que não nos custa nada perder. O medo marca os territórios onde habitam as coisas que mais queremos e mais tememos ao mesmo tempo: a mudança, a exposição, a possibilidade de falhar, de amar e de não ser correspondido, de arriscar e ficar sem rede. O medo é, nesse sentido, um mapa invertido de tudo o que nos interessa.
Olho para trás e vejo os momentos em que o medo foi mais intenso. Eram, quase sempre, os momentos em que a vida me apresentava uma escolha que realmente importava. Não as decisões rotineiras, não os pequenos ajustes quotidianos que fazemos sem pensar. Eram as encruzilhadas. Os momentos em que perceber o caminho implicava deixar outro caminho para trás, definitivamente, sem garantias e, mais importante ainda, sem qualquer retorno possível. O medo era proporcional ao peso da escolha. E, curiosamente, as decisões de que hoje me orgulho mais, as que me moldaram de maneira mais genuína, foram quase sempre precedidas por uma ansiedade considerável.
Há uma cumplicidade estranha entre o medo e a vida. Como se a vida não se revelasse plenamente a não ser àqueles que se dispõem a atravessar o desconforto que ela impõe. Como se o mundo, o mundo verdadeiro, não estivesse acessível a quem fica do lado de cá da linha. E essa linha não é uma fronteira geográfica, nem uma condição social, nem sequer uma questão de talento ou de oportunidade. É uma fronteira interior. É a distância entre o que somos na segurança do que já conhecemos e o que podemos vir a ser quando o familiar fica para trás.
Não estou a falar de heroísmo. Não estou a glorificar a temeridade nem a romantizar o sofrimento. Estou a falar de algo muito mais simples e, simultaneamente, muito mais difícil: a disponibilidade para continuar, mesmo quando tudo em nós quer parar. A coragem não é a ausência de medo. É a decisão de avançar com o medo presente, de o levar como companhia indesejada e inevitável, de não esperar que ele desapareça para então, finalmente, viver.
Porque se esperarmos que o medo desapareça, ficamos parados. Para sempre.
Recordo-me de uma época em que achava que o momento certo estava sempre um pouco mais à frente. Quando tiver resolvido isto, então avanço. Quando estiver mais seguro, então digo. Quando tiver mais certeza, então decido. Essa lógica tem uma aparência de sensatez que a torna particularmente enganosa. Parece prudência, responsabilidade e até mesmo maturidade. Mas é, na maior parte das vezes, medo camuflado com vocabulário de adulto. É, como alguém me dizia um destes dias, a postergação sistémica de tudo o que realmente importa, mascarada de gestão racional do risco.
A vida não espera. E o mundo que existe do outro lado do medo também não espera. Vai acontecendo, vai tomando forma, vai sendo habitado por quem decidiu atravessar. E nós ficamos do lado de cá, a ver o tempo passar, a convencermo-nos de que ainda não chegou a hora, de que ainda não estamos prontos, de que o momento certo há de aparecer por sua própria iniciativa, como se fosse uma dádiva e não uma construção.
O momento certo não existe. O momento disponível existe. E o que fazemos com ele é a única coisa que verdadeiramente nos pertence.
Há também uma dimensão coletiva nisto que estou a dizer. O medo, demasiadas vezes, não é apenas nosso. É ensinado. É transmitido de geração em geração com a melhor das intenções: não te exponhas demasiado, não arrisques o que tens, não queiras demasiado porque o mundo não é generoso. Esses avisos vêm de um lugar de amor, não o duvido. Vêm de quem foi magoado, de quem experimentou a dureza das coisas, de quem aprendeu à própria custa que o entusiasmo não protege da desilusão. Mas o problema é que a prudência transmitida converte-se, com o tempo, em fronteira interiorizada. Deixamos de decidir por nós próprios onde está o limite. Simplesmente herdamos o limite de um outro alguém.
E um limite herdado, permitam-me a frontalidade, não é mais do que uma prisão que nem sequer reconhecemos como tal.
Tudo isto para dizer uma coisa apenas, que demora a aprender-se porque não cabe em nenhuma instrução simples: o mundo, o que nos corresponde verdadeiramente, que tem a nossa medida e o nosso nome, não está antes do medo. Está depois. Está do outro lado de cada vez que decidimos continuar apesar de tudo. Está no espaço que se abre quando paramos de pedir permissão ao medo para viver e, pura e simplesmente, decidimos viver.
Não sei se há uma palavra certa para descrever o que acontece quando finalmente atravessamos essa tal fronteira. Não é exatamente alívio. Também não é euforia. É qualquer coisa mais parecida com reconhecimento. Como se o mundo que encontramos do outro lado fosse já familiar, como se tivesse estado sempre lá à nossa espera, como se a única coisa que nos separava dele fosse o tempo que levámos a decidir que éramos suficientemente capazes para o merecer.
E éramos. Sempre fomos, acreditem.
O medo é real. O que nos paralisa também é real. Mas do outro lado da paralisia, do outro lado do tremor e da incerteza e de tudo o que nos convence de que não é possível, o mundo continua a existir. Inteiro. Disponível. À espera de quem tenha a coragem de aparecer.


Comentários
Enviar um comentário