O que o Amor não é
Há quem diga que o Amor é o último reduto da condição humana. Também existe quem defenda que o acto de amar nos diviniza. E há, claro, quem passe por esta vida inteira a falar de Amor sem nunca ter compreendido ao certo do que se trata, baseando a sua percepção no que ouviu dizer, no que leu em livros que outros escreveram sobre aquilo que também não viveram, ou no que imagina a partir de representações que foram construídas muito antes de sermos nós.
E há quem passe por esta vida sem nunca amar realmente.
Esta última frase é difícil. Não porque seja cruel dizer, o que é um facto, mas porque a crueldade dela está na sua exatidão silenciosa. Não estou a falar de quem não encontrou o parceiro certo, de quem foi traído ou de quem teve azar nas circunstâncias: quem nunca? Estou a falar de outra coisa, de quem, pura e simplesmente, nunca atravessou o limiar. Nunca se expôs o suficiente. Nunca colocou alguém acima do conforto de si próprio, do medo de perder, do orgulho de não precisar. Nunca amou de uma forma que custasse verdadeiramente algo.
E o Amor, quando é real, custa sempre, acreditem.
Não falo do Amor como euforia — esse é paixão, dura pouco e é de fácil acesso. Falo do Amor como escolha continuada, como decisão que se renova nos dias onde não há entusiasmo, nos momentos onde a outra pessoa não está no seu melhor, nos períodos em que tudo seria mais simples se deixássemos de insistir. Esse Amor, o que persiste para além da paixão, é raro. É também, talvez, a coisa mais próxima do que eu entendo por grandeza humana.
O problema é que vivemos numa época que confunde Amor com intensidade. Quanto mais dramático, mais parece verdadeiro. Quanto mais cinematográfico, mais parece legítimo. E quando a intensidade passa, porque passa sempre, confundimos o fim da euforia com o fim do Amor. Descartamos, recomeçamos, voltamos a procurar aquela primeira corrente elétrica que nos convenceu de que aquilo era diferente. E nunca chegamos à parte silenciosa, à parte onde o Amor se torna substância e não espectáculo.
Há também quem o confunda com posse. Com o desejo de que o outro exista dentro de determinados parâmetros, que caiba na versão que construímos para ele, que confirme aquilo que precisamos acreditar sobre nós próprios. Isso não é Amor. É uma forma muito sofisticada de egocentrismo com boa aparência. O Amor verdadeiro deixa o outro ser. Não o quer diferente, não o corrige por conveniência, não o diminui para se sentir maior. Reconhece-o na sua inteireza, incluindo o que incomoda, e escolhe ficar na mesma.
Eu próprio precisei de tempo para perceber a diferença entre amar alguém e precisar de alguém. Entre querer a presença de uma pessoa e querer genuinamente o seu bem, mesmo quando esse bem não me inclui. É uma distinção pequena na aparência e enorme em termos práticos. E há gerações inteiras que nunca a fizeram, que viveram toda a vida dentro de uma confusão afectiva que chamaram de Amor e que era, no fundo, outra coisa: dependência, hábito, medo da solidão, necessidade de espelho.
Não os culpo. A ninguém foi ensinado a amar, se é que tal possa ser ensinado. Fomos ensinados a ser amados, a merecer, a conquistar, a não perder. Mas amar, ou seja entender o Amor como um verbo activo, como um exercício de atenção e de generosidade que não pede sempre reciprocidade imediata, isso raramente vem por instrução. Vem por vida vivida, por erros acumulados, por perdas que ensinam o que as palavras não conseguem.
E talvez seja por isso que o Amor seja, de facto, o último reduto. Não porque seja o mais bonito, mas porque é o mais exigente. O mais revelador. O mais capaz de nos mostrar, sem condescendência, o que realmente somos quando escolhemos alguém.
Mais um devaneio para minha e vossa reflexão, também.

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