Definitivamente, qualquer coisa de intermédio


Há dias assim. Em que me sento à mesa e percebo que não consigo responder a uma pergunta aparentemente simples: quem sou eu, afinal?

Não é uma crise, nem sequer angústia, pelo menos não da que paralisa. É mais uma espécie de estranheza serena, a sensação de que o contorno que os outros veem de mim não coincide inteiramente com aquilo que sinto por dentro, e que aquilo que sinto por dentro também não coincide sempre com aquilo que escrevo, digo ou mostro. Como se eu fosse feito de camadas que não se sobrepõem completamente, que deixam sempre uma fresta, um espaço por preencher, uma margem onde a identidade escorrega.

Sim, tenho um nome, uma função e um lugar que ocupo durante muitas horas do dia, com a responsabilidade e a consciência do que isso implica. Sou reconhecido nesse papel, cumpro-o, creio que até com algum cuidado. E, no entanto, quando saio desse espaço e fico sozinho com as palavras, percebo que esse homem é apenas uma das versões possíveis de mim. Não a falsa, note-se. Apenas uma. A que funciona bem naquele contexto, a que aprendeu a linguagem daquele mundo e a usa com alguma fluência. Mas não a única.

Existe também o outro. O que assina com um nome diferente, que não coincide com o do bilhete de identidade, que guarda dentro de si histórias que não pertencem ao registo formal de ninguém, e que as partilha aqui convosco. Esse outro também é real. Talvez seja até o mais real dos dois, ou pelo menos o mais honesto, o que diz o que o outro não pode dizer, o que chega a lugares que o quotidiano não autoriza. Esse escreve de noite, quando o dia já fechou as suas contas, e não pede permissão nem segue protocolos, porque é livre como só a ficção permite ser.

Contudo, a verdade é que nenhum dos dois me esgota. Há sempre um terceiro lugar onde habito e que é mais difícil de nomear. Um lugar de transição, de tensão produtiva entre o que sou obrigado a ser e o que escolho ser, entre o que o mundo espera e o que eu espero de mim mesmo. Um lugar onde as versões não se contradizem necessariamente, mas também não se fundem. Um intervalo. Uma passagem. Um espaço onde as coisas ainda estão a acontecer, onde nada está definitivamente resolvido, onde a identidade é ainda um processo e não uma conclusão.

Talvez seja aí que me reconheça com mais exatidão. Não no papel, no pseudónimo, na função ou na ficção, mas nesse território intermédio onde todas as versões coexistem sem se anular. Onde posso ser simultaneamente o homem que assina documentos e o que assina os textos que deixo aqui. O que gere e o que divaga. O que decide e o que duvida. O que aparece e o que se esconde.

Durante muito tempo, vi isso como uma fragilidade. A incapacidade de ser uma coisa só, clara, consistente, legível de longe. Achava que os outros sabiam melhor do que eu quem eram, que tinham uma identidade mais sólida, menos fragmentada, menos permeável ao que os rodeava. Hoje já não tenho essa certeza. Suspeito que a maioria de nós vive nesse mesmo espaço intermédio, e que a diferença está apenas em quem tem a coragem de o reconhecer e quem prefere fingir que é inteiro.

Eu prefiro reconhecer. É uma escolha.

Não sou apenas o que trabalha, nem somente o que escreve. Não sou o que os outros viram ontem, nem o que eu mesmo esperava ser há dez anos. Sou a soma imperfeita de tudo isso, mais o que ainda não aconteceu, o que ficou por dizer e o que a vida ainda não teve ocasião de mostrar. Sou, se me permitirem a expressão, qualquer coisa de intermédio. E, estranhamente, é nessa imprecisão que me sinto mais verdadeiro.

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