A banalização do absurdo
Há dias em que olho à volta e percebo que nem Goethe tinha a noção do quanto eram acertadas estas suas palavras nos dias que correm.
Senão vejamos: por estes dias, a pessoa vem perdendo paulatinamente a centralidade nas sociedades coetâneas, aos poucos, sem que de tal se vá dando conta. Primeiro vieram os interesses, depois os discursos, depois o ruído, e por fim esse hábito estranho de aceitar como normal aquilo que devia inquietar-nos. E assim, sem grande alarde, a ignorância foi-se instalando como se fosse lugar de chegada.
O mais inquietante é precisamente isso: não é apenas a ignorância que assusta, é a sua naturalização. Quando deixamos de estranhar o que nos desumaniza, começamos a perder qualquer coisa de essencial. A pessoa passa para a periferia, como se fosse detalhe. E no centro ficam outras forças e interesses, outras agendas e outros jogos, que raramente têm a delicadeza de olhar para o humano como prioridade.
Talvez seja isso que me incomoda mais: a facilidade com que se empurra o indivíduo para o lado, como se a sua dignidade fosse negociável. E não é. Nunca foi. Só que, no meio do barulho, convence-se muita gente do contrário. Basta olhar para o mundo lá fora — para as guerras que se prolongam, para a polarização que corrói o debate público, para a pressão económica que estreita a vida de quem já vivia no limite — para perceber que o problema não é apenas político. É civilizacional.
Vivemos tempos em que tudo parece disputar o nosso centro: a urgência, a desinformação, a pressa, o medo, os interesses que mandam mais do que explicam. E, no meio disto, a pessoa vai sendo tratada como uma variável secundária, como se a vida concreta de cada um fosse um efeito colateral aceitável. Mas quando o ser humano deixa de ser o centro, o resto desarranja-se depressa. A economia fica mais fria, a política mais agressiva, a convivência mais pobre, e a própria linguagem perde substância.
É por isso que certas frases, como esta de Goethe, continuam a soar tão atuais. Porque não falam apenas de épocas — falam de nós. E talvez seja isso o mais desconfortável: a sensação de que a ignorância de que Goethe falava não é uma coisa distante, nem exclusiva de outros tempos. Está aqui, na maneira como aceitamos a banalização do absurdo, a normalização da crueldade e a transformação da pessoa em número, estatística ou inconveniente.
No fim, talvez a questão seja esta: o que estamos a fazer à centralidade da pessoa nas nossas sociedades? E, mais importante ainda, o que acontece a uma sociedade quando a pessoa deixa de importar verdadeiramente? Eu não tenho respostas conclusivas, de todo. Só a convicção de que, quando o ser humano é empurrado para a periferia, tudo o resto começa a ficar perigosamente vazio.

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