Sem filtros
Há uma altura na vida em que a verdade, tal como a paz interior, deixa de ser uma bandeira e passa a ser uma necessidade. Não por heroísmo, nem sequer por superioridade moral. Por cansaço, puro e simples. Cansaço de sustentar versões, de alinhar explicações, de manter pequenas arquiteturas de conveniência que exigem memória, disciplina e uma vigilância constante para não colapsarem ao primeiro descuido.
Mentir, com o tempo, torna-se um trabalho. E há trabalhos que, mesmo quando rendem algum conforto imediato, nos vão consumindo a leveza e a integridade de forma lenta, quase invisível.
A sinceridade de que falo não é aquela rude e impaciente, que se confunde com impulsividade e chama franqueza ao que é apenas falta de delicadeza ou de respeito. Falo de outra coisa, mais rara: a capacidade de dizer o que é, sem teatro, sem a necessidade constante de agradar ou de controlar a leitura que os outros fazem de nós. Há um ponto da vida em que percebemos que viver a tentar parecer outra coisa é uma forma muito cara de deixar de ser quem somos.
Com o passar dos anos, a tolerância para a impostura diminui. Deixamos de ter energia para certas encenações. E começamos a valorizar, quase com gratidão, as pessoas que dizem as coisas sem dobrar a verdade para a tornar mais melodiosa, mas também sem a crueldade de quem a usa como arma. Porque a sinceridade verdadeira não humilha. Limpa. E essa diferença é tudo, acreditem.
No fim, talvez a sinceridade não seja uma nobreza. Talvez seja apenas uma forma de repouso. Não preciso de uma vida impecável, preciso de uma vida verdadeira. E se ela, por vezes, for incómoda, então que o seja com honestidade. Porque mentir, estimad@s, é que já me parece cansativo demais.

Comentários
Enviar um comentário