"Amor fati"

Há expressões que se cruzam connosco em determinados momentos da vida e só mais tarde alcançamos, finalmente, o seu verdadeiro significado. "Amor fati" é uma delas — ou, traduzindo à letra, "amor ao destino". Numa primeira leitura, parece simples: aceitar e abraçar tudo o que aconteceu, está a acontecer e ainda acontecerá. Na prática, porém, há qualquer coisa de profundamente desconfortável nesta ideia de amar aquilo que não escolhi, não controlei e, muitas vezes, nem sequer compreendi.

Durante muito tempo, confundi isto com resignação. Aquela atitude, meio derrotada, de quem encolhe os ombros e diz "é o que é", como quem fecha uma porta por dentro. Parecia-me inconcebível amar certas coisas: perdas, rupturas, doenças, despedidas que não escolhi, silêncios que se impuseram. Como é que se ama aquilo que nos parte ou destroça por dentro? Como é que se abraça o que, no imediato, só nos apetece rejeitar?

Aqui há uns tempos, numa das minhas caminhadas em solitude, sempre repletas de divagações interiores, percebi que talvez estivesse a interpretar mal o conceito. Amar o destino não é romantizar tudo o que nos acontece, nem muito menos fingir que não dói. Não é achar bonito o que é injusto, nem passar um pano por cima daquilo que nunca devia ter acontecido, mas aconteceu. Amar o destino, pelo menos para mim, é, portanto, reconhecer que, querendo ou não, é a partir do que me acontece — do melhor e do pior — que a minha vida se constrói.

Não mando nas cartas que me calham no jogo que a vida me distribui, mas posso decidir como as jogo, em meu benefício. E essa pequena diferença muda tudo, pelo menos na minha perspetiva.

Quando olho para trás, vejo capítulos que nunca teria escrito se a decisão tivesse sido minha. Há cenas que dispensava, personagens que não convidaria a entrar na minha vida, enredos de que fugiria, se me tivesse apercebido a tempo. E, no entanto, é precisamente nesses trechos que encontro algumas das viragens mais importantes da minha vida. Não porque tenham sido "bons" em si mesmos, mas porque me obrigaram a uma escolha: ficar preso ao que me fizeram ou fazer alguma coisa com o que me aconteceu.

Talvez seja isso o coração do amor fati: não é gostar do acontecimento em si, é não desperdiçar aquilo em que ele me pode transformar.

É claro que isto soa muito mais bonito no abstrato do que às três da manhã, quando despertamos para uma insónia das boas, a cabeça não desliga e o peito, como por impulso, aperta. Nessas horas, toda a filosofia parece excessiva, quase irritante, digo eu. Não há conceitos que consolem a perda nem máximas que substituam um abraço. Mas, passado o primeiro impacto, quando a poeira começa a assentar, a pergunta volta: o que é que faço com isto agora?

Posso escolher dois caminhos: alimentar o ressentimento, a revolta muda, o "porquê a mim?"; ou posso aceitar que já aconteceu — que já está inscrito na minha história — e redirecionar a energia para outra direção: o que é que isto me pede a partir de agora? Que parte de mim é chamada a crescer, a ajustar, a aprender, a dizer "não" de forma mais clara, a cuidar de forma mais profunda?

Amar o destino, para mim, estimad@s leitor@s, tem sido isto: parar de discutir com o suposto irrevogável e começar a negociar comigo próprio. Deixar de gastar energia a tentar reescrever capítulos antigos e usá-la para escrever melhor os próximos. Não é conformismo — lá está — é exatamente o seu contrário. É recusar ficar eternamente definido por aquilo que me aconteceu, por mais duro que tenha sido.

Neste caminho entre existir e viver, este gesto de aceitação ativa tem sido uma espécie de revolução silenciosa. Durante anos, vivi muito em guerra com a realidade — a querer que fosse outra, a idealizar vidas alternativas, a comparar-me com versões de mim que nunca chegaram a existir. Hoje percebo o peso que isso tinha: era como empurrar, qual Sísifo, todos os dias uma pedra montanha acima, na esperança de, um dia, acordar numa paisagem diferente.

O amor fati não me promete paisagens mais bonitas. Promete-me outra coisa: que, mesmo que o cenário não mude, eu posso mudar a forma como caminho dentro dele. Posso escolher, por um lado, não ser apenas o resultado dos acontecimentos e, por outro, o modo como lhes respondo. Posso decidir não deixar que o pior que me aconteceu dite o melhor que ainda posso ser.

Isto não se faz de uma vez. Não há um momento mágico em que, de repente, passamos a amar tudo o que a vida nos trouxe. Há, talvez, pequenos gestos quotidianos de reconciliação: olhar para uma cicatriz e, em vez de apenas recordar a dor, reconhecer também a resistência; aceitar que certas histórias não tiveram o desfecho que imaginávamos e, ainda assim, fazem parte do caminho que nos trouxe até aqui; admitir que não controlamos quase nada, mas que, sem prejuízo, somos responsáveis por aquilo em que nos vamos tornando.

No fim do dia, "amor fati" é menos um slogan e mais uma prática lenta, imperfeita, feita de avanços e recuos. Há dias em que o destino me parece aceitável, quase amável. Noutros, parece-me um mau argumento de um enredo demasiado novelístico. Mas, mesmo nesses dias, há uma escolha que permanece: posso continuar a lutar contra aquilo que é; ou posso deixar de gastar tanta energia na resistência e começar a usá-la para estar mais inteiro na vida que tenho — e não na que imaginei ter.

Talvez amadurecer seja, em parte, também isto: aprender a não fugir da própria história. Olhar para o conjunto — as perdas e os encontros, os fracassos e os acertos, os começos que nunca avançaram e os fins que chegaram cedo demais — e, ainda assim, dizer: "É daqui que sigo. Com isto, não apesar disto."

Se calhar, é nesse instante que o "amor ao destino" deixa de ser apenas uma frase bonita numa página e começa, finalmente, a ser uma possibilidade concreta de vida.

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