Quem és tu?

Há uma certa estranheza, muito particular, em olhar para si próprio através do tempo. Não se trata daquela nostalgia que, por vezes, nos visita num final de dia qualquer, trazendo consigo um certo conforto melancólico — é algo mais desconcertante e, ao mesmo tempo, honesto: o reconhecimento.

Olho para o rapaz da primeira fotografia. A camisa aos quadrados, o sorriso aberto, os olhos que ainda não sabem bem para onde olhar, mas que transbordam de encanto pela vida, apesar das dificuldades à sua volta. Reconheço-o, claro. Mas reconheço-o como quem reconhece um lugar onde já se esteve e do qual ficou apenas o cheiro e a luz — enfim, uma memória ténue e aprimorada pela distância. Os pormenores, as palavras, os medos miúdos que então pareciam enormes, perderam-se no tempo. Ele era eu, ou melhor, eu era ele. Já não sei muito bem.

Depois temos o adolescente, com aquela seriedade forçada de quem quer parecer mais do que é, ou talvez de quem ainda não sabe bem o que é. Há nele uma tensão contida, uma espécie de determinação ensaiada em frente ao espelho, talvez. Também esse fui eu, com a urgência de quem ainda não aprendeu que o tempo é mais longo do que parece e, simultaneamente, mais curto do que aquele adolescente desejaria.

E o jovem à beira-mar, com a cabeça rapada e o sorriso aberto ao horizonte, como se o mundo coubesse inteiro naquele instante? Esse parecia saber qualquer coisa que, aqui entre nós, confesso já ter esquecido. Ou talvez não soubesse, pura e simplesmente, nada — e fosse precisamente esse o segredo que carregava naquele sorriso.

E então chego a quem sou hoje, com os contornos do rosto que o tempo foi lavrando devagar, as marcas que a vida deixa quando passamos por ela a sério, o olhar que já não procura provar nada, pois reconhece o seu próprio valor intrínseco. Reconheço-me neste ser com maior facilidade — afinal, é o que mais se aproxima de quem sou hoje. Mas, curiosamente, é também aquele que mais me interpela, questionando baixinho: és tu, de facto?

Existe uma ideia antiga, que encontro em Goethe, que ressoa em Dostoiévski e que, no fundo, perpassa quase toda a grande literatura, segundo a qual o Self — o que somos — não é uma essência fixa, mas antes um percurso. Não somos a mesma pessoa ao longo da vida: somos, quando muito, um fio que atravessa versões distintas, ligando-as sem as fundir. A identidade, nesta perspetiva, não é um ponto de chegada, mas o resultado de um movimento contínuo ao longo do tempo.

E talvez amadurecer seja isto: aprender a reconhecer-se, na inexorável passagem do tempo, em todas as versões de si.

Não como quem renega o que foi, nem como quem se afoga em saudade e nostalgia. Mas como quem olha para uma sucessão de retratos desenhados a carvão e percebe que, em cada contorno, em cada sombra e em cada luz, existe a mesma mão a desenhar — imperfeita, persistente e inconfundível. Imperfeitamente perfeita, talvez.

Comentários

Mensagens populares