Entre os (des)acertos


Tantas vezes ouvi esta frase enquanto crescia, noutra variante, é certo, mas mantendo a essência da mensagem. Era daquelas frases que o meu pai dizia com uma leveza aparente que, na realidade, escondia muito mais. Cresci sem lhe dar grande importância, ou melhor, tomando-a como um alerta, um aviso à navegação, para corrigir a rota até ali escolhida. Mas, como acontece com tudo o que ouvimos na Primavera da vida, só mais tarde percebemos o sentido e o alcance do que foi dito.

No fundo, a ideia é simples: se até um relógio avariado pode acertar na hora duas vezes por dia, também nós podemos acertar no meio dos muitos desacertos desta vida e, assim, mudar de rota para evitarmos os perigos que se vislumbram mais à frente. E há, por isso, qualquer coisa de muito honesto nesta ideia. Não nos promete a perfeição, não nos exige uma constância que raramente somos capazes de sustentar. Apenas nos lembra que errar não é o fim e que acertar, mesmo que por acaso e de vez em quando, já é um feito em si.

Penso nisto quando olho para o meu próprio caminho. Houve alturas em que fui claramente o relógio parado — travado, sem direção, a repetir os mesmos erros com uma consistência, aqui entre nós, admirável. E houve momentos, no meio desse desacerto todo, em que alguma coisa acertou. Uma decisão tomada na hora certa. Uma palavra dita sem premeditação que chegou onde devia. Uma escolha feita por instinto que, afinal, era a escolha certa.

A vida não funciona em linha reta, por mais que gostássemos que assim fosse. Tem os seus ritmos estranhos, as suas pausas inexplicáveis, os seus acertos improváveis. E talvez o segredo não seja tanto evitar os desacertos — porque esses vêm sempre, queiramos ou não —, mas aprender a reconhecer os acertos quando aparecem. Celebrá-los, mesmo os pequenos. Mesmo os que chegam tarde. Mesmo os que não estavam nos planos.

E a lição que fica, pelo menos para mim, é que a sabedoria, por vezes, vem de onde menos esperamos, num dito popular, numa frase de alguém ou até quando dormimos, nos nossos sonhos.

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