Dos nossos caminhos…

Há frases que não se ouvem: pousam sobre nós como epifanias soltas lançadas ao vento e, talvez por isso, caem com a leveza de uma verdade que ainda não decidimos aceitar. 

Hoje, no meio de uma conversa banal, dessas onde as palavras circulam sem compromisso, alguém, revestido de uma espécie de beatitude improvisada, deixou escorregar uma sentença que não parou de reverberar no meu pensamento: se na tua caminhada não te cruzares com o Diabo, talvez seja porque caminham na mesma direção.

Estamos habituados a imaginar o mal como oposição, como confronto, como aquilo que nos bloqueia o caminho e nos obriga a parar. Crescemos a pensar que o Diabo é obstáculo, tentação visível, desvio claro. Mas e se não for? E se o mal mais eficaz for precisamente aquele que não interrompe, que não grita, que não se revela? Aquele que acompanha, sem se manifestar.

Talvez o verdadeiro perigo não esteja nas encruzilhadas onde hesitamos, mas nas estradas por onde seguimos sem hesitar. Nos dias em que tudo parece alinhar-se com uma fluidez excessiva. Nos momentos em que não há fricção, nem dúvida, nem resistência, apenas uma confortável e familiar continuidade.

Porque o confronto, por mais duro que seja, ainda é sinal de desalinhamento. É prova de que há algo em nós que recusa. Já a ausência de conflito pode ser outra coisa: uma espécie de coincidência silenciosa entre o que somos e aquilo que deveríamos temer.

E é essa ideia que me inquietou, não porque sugira culpa, mas por introduzir uma pergunta mais exigente do que qualquer acusação: e se aquilo que não nos desafia nos estiver, afinal, a moldar? E se a facilidade for, em certos casos, uma forma subtil de desistência?

Talvez o Diabo coetâneo não precise de nos tentar. Basta-lhe acompanhar-nos com discrição suficiente para que nunca sintamos necessidade de mudar de direção.

No fundo, a frase não fala do Diabo. Fala de orientação. E deixa no ar uma inquietação que não se resolve com moralismos fáceis: mais do que perguntar contra o que lutamos, talvez devêssemos perguntar ao lado de quê, ou de quem, caminhamos.

Fica a partilha para minha, e vossa, reflexão. 


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