Do cavalo que não montas…

Existe um provérbio russo que encerra uma ideia desta natureza: “Nunca alimentes um cavalo que não montas.” É uma frase simples, quase brutal na sua essência e no pragmatismo que carrega — mas repleta daquela sabedoria que a vida nos tarda a ensinar e que poucos têm a coragem de aplicar na vida real.

Sim, porque nós alimentamos. Alimentamos muito, e durante tempo demais. Alimentamos relações que já não nos sustentam. Alimentamos expectativas que ninguém confirmou. Alimentamos pessoas que aceitam o que lhes damos sem jamais perguntarem como estamos. E continuamos a voltar ao estábulo, pá na mão, com uma fidelidade que, à luz da razão, seria difícil de justificar.

Porquê? Talvez por hábito. Talvez por medo do vazio que ficaria se deixássemos de o fazer. Talvez porque, no fundo, confundimos generosidade com necessidade — e chamamos virtude àquilo que é, frequentemente, incapacidade de soltar, ou melhor, apego ao que já não nos acrescenta.

Mas há um momento — e quem já o viveu reconhece-o — em que percebemos que o cavalo que alimentamos com tanto cuidado nunca foi nosso. Nunca o seria. E que toda a energia gasta a sustentá-lo foi subtraída àqueles que estiveram lá para nós, às relações que nos elevam, às causas que nos movem, às pessoas que, de facto, nos esperam, apesar de tudo.

Não se trata de frieza. Trata-se de discernimento — essa palavra que a maturidade vai tornando cada vez mais familiar. Saber onde investir o tempo, a atenção e o afecto é, talvez, uma das formas mais honestas de respeitar a própria vida e o verdadeiro milagre que ela é.

Por isso, alimenta bem quem te leva longe e o que te faz crescer. O resto, deixa pastar em paz.

Fica a ideia para minha, e vossa, reflexão…

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