Entre existir e viver

Há uma diferença enorme entre existir e viver. Durante muito tempo, confundi as duas coisas. Acordava, cumpria o programa do dia, deitava-me. Repetia este ciclo diariamente, como algo mecânico. E havia nisso uma certa paz: a paz de quem não faz perguntas porque tem medo das respostas. Mas era uma paz falsa, dessas que se parecem com conforto mas que, no fundo, são só anestesia para uma realidade (in)tolerável.

Não sei bem quando mudou — ou melhor, até sei, mas isso é tema para outro dia. Não foi um momento único, como nos filmes. Foi mais como uma luz que vai entrando devagar pela fresta da janela, na qual nem reparas, e de repente o quarto, ou a caverna, já está iluminado. O propósito não aparece com fanfarra ou pompa e circunstância. Aparece em silêncio, quando começas a fazer as pazes contigo mesmo e a reparar no que vês à tua volta — e em ti, no teu interior.

E isso é a parte mais difícil, curiosamente. Não é encontrar o propósito lá fora, num trabalho, numa relação, num projeto. É encontrá-lo dentro de ti. É olhar para ti sem o filtro do que devias ser, do que os outros esperam de ti, do que sempre disseram que eras. É deixar cair a performance e ficar com o que sobra — que às vezes parece pouco, mas é real.

Quando isso acontece, quando começas a estar bem contigo, a vida ganha outro sabor. Não é que os problemas desapareçam. Continuam lá, com toda a sua teimosia característica. Mas a tua relação com eles muda. Passas a encará-los de frente, sem o peso extra da autocomiseração ou da ansiedade de não saber quem és. E isso, por si só, é uma libertação enorme, acreditem.

Há uns anos, eu vivia muito para fora. Precisava de validação externa para me sentir no caminho certo. Se as pessoas gostavam, estava bem. Se não gostavam, as inseguranças e a baixa autoestima faziam o seu trabalho, e tudo parecia desmoronar em mim. Era como construir uma casa em areia — qualquer vento mais forte tratava de a destruir. Não era vida, era uma peça de teatro em que eu era o único ator convicto de que o palco era o mundo real e os outros o público que validava, ou não, o meu valor.

Mas quando encontras o teu propósito — e eu acredito que cada um tem o seu, porque não existe um propósito universal do tipo manual de instruções —, o centro de gravidade muda. Passas a agir a partir de dentro e não em função do exterior. E essa pequena diferença transforma tudo. As escolhas ficam mais claras. As relações ficam mais honestas, tornas-te mais seletivo e já não acolhes no teu círculo qualquer pessoa. O tempo passa a ser algo que usas, que não desperdiças à espera que a vida comece.

E depois? Bem, acontece o que não estava nos planos: começas a olhar para o mundo de outra forma. Não com inocência ingénua, porque, em boa verdade, a perdeste nas tempestades que viveste no caminho, mas com uma espécie de generosidade que antes não tinhas. Quando estás bem contigo, sobra espaço para os outros. Não porque sejas santo — longe disso —, mas porque deixas de estar em modo de sobrevivência constante. E no espaço que se abre, cabem coisas bonitas. Certo?

Não te vou dizer que é simples. Não é. Há dias em que o propósito parece uma miragem: está ali, consegues quase tocá-lo, e depois desaparece. Há recaídas no velho padrão, nas velhas vozes, no velho medo. Mas a diferença é que agora já sabes como é do outro lado. E isso muda tudo. Porque já não tens desculpa para fingir que não sabes o caminho.

A vida tem outro sentido quando encontras o teu lugar nela. Não o lugar que te atribuíram, mas o lugar que construíste, com as tuas próprias contradições, os teus erros, as tuas versões todas. O lugar onde, quando chegas a casa e fechas a porta, não precisas de representar mais nada.

Esse lugar existe, acreditem, e vale cada passo do caminho.

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