A paz não se encontra

É verdade, confesso. Durante muito tempo, procurei paz como quem procura uma coisa que perdeu, ainda que convicto de que estava algures, à minha espera, e que sob as condições certas — o sítio certo, a pessoa certa, a fase certa —, acabaria por aparecer. Ou, pelo menos, assim acreditava. E a verdade é que fui adiando, adiando, como quem guarda para amanhã aquilo que, como cantava o Variações, não precisava de deixar para amanhã, porque já hoje seria possível.


O problema com essa ideia — sedutora como sei que ela pode ser — é que transforma a paz numa recompensa exterior, num destino que se alcança depois de tudo o resto estar resolvido. E, enquanto estamos à sua espera, a vida passa, os anos somam-se, e a paz continua a ser uma promessa de um amanhã que não chega ou, como também cantavam os Rádio Macau, chega sempre tarde demais (já se vê que isto hoje é uma verdadeira homenagem ao pop português dos anos 1980, mas acreditem que não é intencional. Ou será?!).

Parafraseando esse mestre das artes marciais que tão prematuramente nos deixou, o eterno Bruce Lee, com a economia de palavras que tão bem o caracterizava: a paz não se encontra, escolhe-se — pelo que se decide ignorar, pelo que se liberta e pelo que se deixa simplesmente partir. Quando se reflete sobre este pensamento pela primeira vez, poderá parecer uma ideia demasiado simples. Mas, como em tudo nesta vida, há coisas que só parecem simples até as tentarmos pôr em prática e vivenciar de verdade.

Porque, desenganem-se, escolher a paz não é fácil. É, talvez, uma das decisões mais exigentes que podemos tomar, acreditem. Vivemos rodeados de ruído — não apenas o barulho do mundo lá fora, mas o barulho que carregamos cá dentro: as conversas que não tivemos, as palavras que nunca foram ditas, os ressentimentos que insistimos em carregar como se fossem pertences imprescindíveis. E a paz, que tanto procuramos, vai sendo adiada, precisamente porque temos dificuldade em soltar aquilo que nos pesa mas que, de alguma forma e por mais estranho que pareça, já integrámos como parte de nós.

Há um paradoxo curioso aqui: às vezes, agarramo-nos ao que nos faz sofrer porque é familiar. A dor conhecida parece mais segura do que a leveza desconhecida. E então continuamos a alimentar memórias que nos corroem, relações que já expiraram, expectativas que nunca foram realistas, versões de nós próprios que já não existem, mas que recusamos enterrar — talvez, quem sabe, por apego a algo que não nos faz bem e com que, ainda assim, decidimos preencher as nossas vidas.

Escolher a paz passa, por isso e em boa medida, por aprender a ignorar. E, desenganem-se, ignorar não é o mesmo que fingir que não existe ou que o elefante não está na sala — é decidir conscientemente não dar mais energia àquilo que já nada nos pode acrescentar. É olhar para uma situação, para uma pessoa, para um pensamento, e dizer: "Isto já não tem lugar aqui." Sem qualquer drama, apenas uma simples decisão.

Passa também por libertar. E libertar, lá está, também não significa esquecer — a memória, como é consabido, não obedece a ordens. Significa deixar de permitir que o passado conduza o nosso presente e perceber que guardar o peso de tudo o que nos aconteceu não é honrar o que vivemos: é apenas, e tão somente, ficar preso naquilo que já não somos.

E passa, diria ainda, por deixar partir as pessoas que já partiram, por escolha própria ou por força das circunstâncias. As versões antigas de nós que já cumpriram o seu tempo. Os planos que não avançaram. Os sonhos que se revelaram ser, afinal, de um outro alguém. Deixar partir não é derrota: é, na maioria das vezes, o gesto mais corajoso que podemos fazer.

Aqui entre nós, tenho procurado exercitar esta prédica que aqui estou a partilhar convosco — umas vezes, é certo, mais bem-sucedido e com maior clareza de espírito; noutras, bem, nem por isso, confesso. Mas o que noto, nos momentos em que consigo ter sucesso, é que a paz não aparece como um raio de luz divino. Aparece devagar, quase sem se anunciar, como uma leveza interior, aliviando a carga que trazia e clareando a visão em relação ao que realmente importa e faz sentido.

Portanto, a paz não é a ausência de conflito. Também não é a ausência de dor. No fundo, acredito que a paz é poder olhar para o que foi e para o que é e, ainda assim, respirar fundo sem aperto no peito.

E é por tudo isto que, em boa verdade, vos digo: a paz não se encontra. Escolhe-se — todos os dias, em pequenas decisões que ninguém vê, mas que se acumulam silenciosamente na nossa vida, transformando-a para melhor.

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