Um ciclo que se fecha
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
— Fernando Teixeira de Andrade (atribuído)
Há ciclos que não se encerram com ruído. Fecham-se quase em silêncio, como quem pousa lentamente um objeto pesado que já foi carregado por demasiado tempo. Só mais tarde se percebe que, afinal, o peso também podia ser isso: uma forma de presença, de dedicação, de vida vivida com seriedade e entrega.
Nem todos os ciclos nos deixam a mesma marca. Alguns passam quase sem deixar vestígios. Outros moldam-nos de tal forma que, quando terminam, já não somos exatamente os mesmos que começaram. Talvez seja essa a verdadeira medida de um ciclo importante: não apenas o que nele aconteceu, mas aquilo em que nos transformou enquanto acontecia.
Há períodos da vida em que tudo parece concentrar-se. O trabalho, as responsabilidades, as expectativas, as conquistas, os desgostos, as perdas, os recomeços. E, sem nos darmos conta, vamos vivendo dentro de um mesmo tempo largo, feito de muitas camadas, onde cabem, ao mesmo tempo, o esforço e a resistência, a esperança e a dúvida, a vitória e a ferida. Só quando esse tempo se fecha é que conseguimos vê-lo com alguma distância e nitidez. Só então a memória começa a separar o que era ruído do que era, afinal, essencial.
O que fica, nesses momentos, não é apenas o resultado do que foi feito. Fica também uma espécie de clarividência tardia. Percebemos melhor o que suportámos, o que aprendemos, o que perdemos e o que, apesar de tudo, se manteve inteiro em nós. E compreendemos ainda outra coisa, talvez mais discreta, mas certamente mais importante: que nem tudo o que se rompe é destruição, e nem tudo o que termina é apenas um fim. Há encerramentos que são também uma forma de arrumação interior, como se a vida, depois de tanto insistir, finalmente nos devolvesse alguma ordem.
Olhar para trás, nestas alturas, não é um exercício de nostalgia. É um ato de reconhecimento, sei-o agora. Reconhecer o caminho percorrido, as versões sucessivas de nós próprios, as forças que fomos tendo e as que fomos descobrindo apenas porque não havia outra alternativa. E é também um gesto de gratidão — mesmo quando a gratidão vem misturada com cansaço, com saudade ou com a estranha sensação de que uma parte de nós ficou ligada a esse tempo, como um cheiro que fica numa casa antiga.
Mas olhar para trás não basta. Um ciclo que se fecha também nos obriga a olhar em frente, ainda que o futuro, por agora, possa não ter contornos nítidos. E talvez seja precisamente isso que o torna interessante: não saber ainda o que vem, mas saber que há espaço para respirar, reorganizar prioridades, escutar melhor e, acima de tudo, voltar a estar de uma forma mais simples e mais verdadeira no mundo.
Há, por vezes, uma beleza discreta nestes momentos. Não a beleza da euforia nem a do triunfo. Uma beleza mais serena, mais madura, feita de aceitação e de promessa. A de quem sabe que chegou ao fim de uma travessia importante e, ainda assim, não sente vontade de apagar o caminho. Pelo contrário: sente vontade de lhe agradecer.
Talvez seja isso que mais importa quando um ciclo termina. Não o balanço exato, não a explicação completa, nem a narrativa perfeita. Mas a consciência de que algo em nós chegou ao seu termo, no tempo certo. E que, mesmo sem sabermos ainda muito bem o que vem a seguir, há uma espécie de paz em reconhecer: isto aconteceu. Isto contou. Isto fez de nós o que somos agora.
E é isto...

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