À criança que fui

Se pudesse voltar no tempo e sentar-me ao lado da criança que fui, não lhe diria para ter menos medo. O medo faz parte. Seria falso fingir o contrário. Dir-lhe-ia, antes, que nem tudo o que a assusta merece ficar para sempre. Que algumas dores passam. Que outras ficam, é verdade, mas deixam de decidir por nós. E que crescer não é deixar de sentir. É aprender a não se perder no que se sente.

Dir-lhe-ia também que não precisa de ser perfeito para ser amado. Que a seriedade não está em levar a vida demasiado a sério, mas em levá-la a sério na medida certa. Que há silêncios que protegem e outros que ferem, e que vai levar algum tempo a distingui-los. Que nem todas as pessoas merecem o mesmo lugar na nossa vida. E que isso não faz dele alguém pior, mas antes alguém mais atento, talvez mais só, é certo, mas também mais lúcido.

Talvez lhe dissesse, sobretudo, para seguir o instinto e confiar naquilo que o faz sorrir sem esforço. Porque é aí que costuma estar a verdade. E para não se envergonhar da ternura, nem da dúvida, nem da sensibilidade. Não são fraquezas. São formas de estar no mundo com humanidade. São, no fundo, a matéria discreta de que somos feitos quando ninguém nos está a ver.

O resto aprende-se com o tempo. O que tiver de cair, cai. O que tiver de ficar, fica. E nem sempre ficamos com o que queríamos, mas ficamos, quase sempre, com o que nos ensina a ser.

Se pudesse voltar no tempo, dir-lhe-ia ainda isto: vais sobreviver a mais do que imaginas, mas não precisas de sobreviver sozinho a tudo. Aprenderás, aos poucos, que pedir ajuda também é uma forma de coragem. Que há amores, gestos e memórias que não resolvem a vida, mas tornam-na suportável. À criança que fui, diria também para não desistir de ser inteira, porque o mundo tratará de a tentar quebrar. E que se mantenha, apesar de tudo, fiel ao que nela ainda sabe e consegue reconhecer o bem.

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