Dos sonhos...

 

"Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem diga nem todas, só as de verão. Mas no fundo isso não tem muita importância. O que interessa mesmo não são as noites em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre. Em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado."

— William Shakespeare (atribuído)

Há uma ideia antiga, e bastante romântica, de que os sonhos pertencem ao verão. Que é nesta estação, com as noites mais longas, o calor que lhe é característico e o tempo aparentemente suspenso, que a imaginação decide trabalhar em pleno. Não é difícil perceber de onde vem essa associação. Afinal, o verão convida a abrandar, e quando abrandamos, o que estava debaixo do ruído começa a vir à superfície.

Mas a verdade, aquela que se aprende com o tempo e com alguma atenção ao que se passa lá dentro, é outra: os sonhos não pedem autorização à estação do ano. Não esperam pelo calor nem pela luz. Acontecem em dezembro, em fevereiro, numa chuvosa terça-feira de março. Acontecem acordados, a meio de uma conversa banal, num comboio, num semáforo vermelho que dura tempo suficiente para uma ideia aparecer e instalar-se. Porque os sonhos são persistentes. São, talvez, das coisas mais persistentes que temos.

O que o verão faz, e isso merece reconhecimento, é criar condições. Dá-nos espaço. Afrouxa a agenda, baixa a guarda, convida a sentar sem propósito definido. E quando isso acontece, os sonhos que andavam a circular em segundo plano, discretamente, à espera de janela, encontram finalmente passagem. Não é que sejam novos. É que agora há silêncio suficiente, ou as condições ideais, para os ouvir.

Há sonhos que vivem demasiado tempo em modo de espera. Guardados para quando houver tempo, para quando as circunstâncias melhorarem, para quando a vida estiver mais estável — o que é uma forma elegante de os adiar indefinidamente. Conhecemos todos essa conversa: quem nunca?! Temo-la connosco próprios com uma regularidade que roça o cómico.

A questão não é se tens condições perfeitas para sonhar. Nunca terás. A questão, aqui entre nós, é se estás disposto a sonhar com as condições que tens — imperfeitas, incompletas e com o peso do quotidiano ainda em cima. Porque os sonhos que resistem a esse peso são exactamente os que merecem a nossa atenção. São os que dizem algo verdadeiro sobre o que és e o que queres, independentemente do que o calendário indica.

O verão, enquanto símbolo, tem uma vantagem: lembra-nos que há uma versão nossa mais leve, mais disponível e mais permeável ao que ainda pode acontecer. Não é uma versão de férias — é uma versão desbloqueada. E essa versão não precisa de esperar por junho para aparecer. Pode ser convocada. Com deliberação, com prática, com a decisão simples de parar o suficiente para escutar o que está a tentar dizer-te há já algum tempo.

Os sonhos não têm estação, acredita. Têm, isso sim, necessidade de atenção. E tu, que chegaste até aqui, já sabes melhor do que ninguém que a atenção é uma das coisas mais valiosas que podemos dar — a nós próprios, aos outros e ao que ainda está por viver.

Fica o devaneio... 

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