Porto de abrigo

Aqui entre nós, em tom de confidência, há dias em que o simples acto de continuar já consome quase tudo o que temos. A vida não pede apenas presença. Pede resiliência, improviso e uma grande dose de disponibilidade emocional que nem sempre conseguimos manter, sem custo. Por isso, de vez em quando, damos por nós a procurar um lugar onde não seja preciso explicar demasiado. Um sítio onde a nossa presença seja reconhecida sem esforço e onde o peso dos dias possa ser, ainda que por instantes, deixado à porta.

Esses lugares raramente são perfeitos. Não são paraísos nem soluções definitivas. São apenas sítios onde o nome não precisa de ser repetido para ser lembrado e onde chegar já contém, em si, uma pequena promessa de acolhimento. Talvez a maturidade também seja precisamente isto, entre outras coisas: deixar de procurar um refúgio absoluto e começar a reconhecer os pequenos territórios de abrigo que a vida, de forma discreta, nos vai concedendo.

É nesses momentos, guiados pela maturidade adquirida, que nos tornamos mais atentos ao que realmente precisamos. Não tanto ao que ficou para trás, mas ao que nos faz falta para continuar: mais calma, mais verdade, mais espaço interior, talvez uma forma mais leve de estar no mundo. E é aí que os recomeços deixam de soar a ruptura e passam a parecer possibilidade. Não chegam com alarde. Chegam com um silêncio limpo, quase discreto, como se a vida estivesse apenas a abrir uma porta que ainda não víamos. Primeiro reconhecemos o que nos falta. Só depois percebemos que isso também pode ser uma forma de esperança.

Fica a nota. Para minha e, mais uma vez, vossa reflexão, também.

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