A bússola errada, se é que existe uma certa

 

Há uma forma de prisão que não tem grades visíveis. Não tem cadeado nem chave. É construída devagar, muitas vezes com as melhores intenções, e habitamo-la durante anos sem perceber exatamente quando entrámos. É a prisão de viver em função do que os outros pensam de nós — do que dirão, acharão, aprovarão ou reprovarão.

Começa cedo. Logo na infância, aprendemos que certos comportamentos geram aplauso e outros geram silêncio ou desaprovação. E o nosso sistema nervoso, que é eficiente mas pouco subtil, tira a conclusão mais prática: faz o que é aplaudido. Repete o que gera aprovação. Evita o que gera rejeição. É um mecanismo de sobrevivência legítimo — e torna-se, com o tempo, um hábito que pode durar a vida toda.

O problema não é querer ser aceite. Isso é humano e não tem nada de errado. O problema começa quando a necessidade de aprovação se torna a bússola principal das nossas decisões. Quando escolhemos carreiras, relações, opiniões e até gostos pessoais não a partir do que genuinamente somos, mas a partir do que acreditamos que será melhor recebido.

O custo disto é alto. Não se paga de uma vez, mas em prestações silenciosas: uma decisão que não era bem a nossa, uma opinião engolida a tempo, uma relação mantida mais pelo medo do julgamento alheio do que pela vontade genuína de nela estar. E acumula-se. E chega um momento em que já não sabemos muito bem onde termina o que os outros esperam de nós e onde começa o que nós próprios queríamos.

A liberdade, nesse contexto, não é fazer o que se quer sem consequências — isso é outra coisa. É chegar ao ponto em que as decisões importantes da vida são tomadas a partir de um centro próprio, e não a partir de uma projeção imaginada de como serão recebidas lá fora. É a diferença entre perguntar “o que é que eu quero?” e perguntar “o que é que eles vão achar?” Parece simples, mas não é.

Desaprender a dependência da aprovação implica suportar, pelo menos durante algum tempo, a incerteza de não saber se somos suficientemente bons, certos ou admiráveis. Implica tolerar o desconforto de decepcionar alguém — ou vários. E isso exige uma coragem que raramente é espectacular, mas é das mais difíceis: a coragem de ser indiferente ao aplauso sem ser indiferente às pessoas.

Quem chega a esse ponto — e não é um destino, é um trabalho permanente — descobre qualquer coisa inesperada: que a vida, vista de dentro para fora, cabe muito melhor.

Tenho dito… 

Comentários

Mensagens populares