Facilita

"Sim, quem é feliz facilita. Facilita o dia, as conversas, o caminho, a relação com o outro e, mais importante, a vida."

By Me, Myself and I (atribuído)

Quem está bem consigo próprio não precisa de competir, impressionar, ocupar demasiado espaço ou retirar o dos outros. Não tem uma agenda escondida nas conversas, não lê segundas intenções onde não as há, não precisa de ganhar em cada interação para se sentir suficiente. E isso, estimad@s, liberta — aos próprios e a quem os rodeia. Porque, em boa verdade, uma parte significativa do cansaço que sentimos nas relações não vem das pessoas em si, mas antes do esforço permanente de decifrar o que está por baixo do que dizem, de antecipar reações e de avaliar o terreno para aferir a sua consistência. Com quem está genuinamente bem, esse esforço desaparece e, acreditem, o dia fica mais fácil.

Facilitar não é o mesmo que ser fácil. Facilitar é criar condições para que as coisas aconteçam com menos atrito, menos ruído e menos desperdício de energia, nossa e dos outros. É a diferença entre uma conversa que abre caminho e outra que o fecha, entre uma presença que nos relaxa e outra que nos deixa tensos, entre um encontro que deixa algo de bom e outro que deixa o cansaço de ter estado em alerta.

E, acredito, é por isso que existem pessoas que chegam a uma sala e a tornam mais leve. Não fazem nada de extraordinário. Não contam piadas, não têm uma energia particularmente contagiante, não são necessariamente as mais divertidas ou as mais brilhantes. Mas há qualquer coisa nelas que descomprime o ar à volta. Uma serenidade. Uma disponibilidade. Uma forma de estar que diz, sem palavras: "aqui não é preciso defenderes-te de nada."

Não é coincidência. É consequência.

E há aqui uma responsabilidade que me atrai particularmente: a de trabalharmos a nossa própria paz interior não apenas como projeto pessoal, mas como gesto generoso em relação aos outros. Porque o estado em que nos apresentamos ao mundo não é apenas nosso — contamina, para o bem e para o mal, tudo o que está à nossa volta. A pessoa que ainda não resolveu as suas guerras interiores leva-as para todas as salas, para todas as conversas, para todas as relações. Às vezes sem saber, mas sempre com um custo para si e para os outros.

Quem é feliz facilita. Não porque seja ingénuo ou alheio às dificuldades — a felicidade real, a que foi conquistada e não apenas herdada por sorte, coexiste perfeitamente com o conhecimento do que a vida custa. Mas porque quem atravessou as suas sombras e as reconhece tem uma leveza genuína que, aqui entre nós, é difícil de fingir e impossível de comprar.

Por isso, meu jovem gafanhoto, facilita o dia, as conversas, o caminho e, mais importante, a vida. Estamos todos aqui de passagem, temos o tempo contado e nunca sabemos quando chegará a nossa hora — para quê arrastarmos pesos que só nos impedem de viver com a leveza que o universo nos desafia?

Tenho dito. Fica mais uma nota, para minha e, quem sabe, vossa reflexão, também.

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