E tu, o que fazes com os teus demónios?

Será mesmo assim? Há uma ideia que anda por aí a circular com um entusiasmo preocupante, confesso: a de que devemos usar os nossos demónios a nosso favor. Ouvi-a, li-a e vi-a estampada em imagens como esta. E confesso que me tem feito pensar.

Não que a ideia seja completamente errada ou desprovida de sentido. Há, de facto, quem transforme as suas sombras em combustível criativo: quem nunca? A história está cheia desses casos. Dostoiévski escreveu nas suas obras sobre o abismo, porque, em boa verdade, o conhecia por dentro. Caravaggio, por sua vez, pintou as faces de apóstolos, mártires e até da Virgem Maria recorrendo a modelos marginalizados das ruas de Roma — mendigos, prostitutas, ladrões e boémios que frequentavam as mesmas tabernas que ele —, porque os seus demónios tinham rosto e acreditava que a divindade, o milagre e a redenção se encontravam na carne, no sofrimento e nas contradições da própria condição humana. Miles Davis tocou como quem estava permanentemente em guerra consigo próprio, e que guerra magnífica, diga-se en passant.

Mas o que a história também mostra, meus car@s, é que esses senhores pagaram um preço alto. Muito alto. E não exactamente com um cartão de crédito qualquer, como tantas coisas se compram e pagam nesta sociedade do consumo imediato (lá estás tu, novamente, com a pop portuguesa dos anos 1980, desta feita com os Táxi).

Porque há uma diferença considerável entre transformar o caos interior em obra e passar o tempo a dar boa luz e filtro Clarendon aos próprios demónios, chamá-los de "complexidade", "intensidade" ou "profundidade" e exibir isso tudo nas redes sociais como se fosse uma virtude, numa lógica de procrastinação emocional com boa apresentação gráfica.

Nem todos os demónios são matéria-prima para o crescimento. Alguns são só demónios. E insistir em capitalizá-los, em vez de os encarar de frente, é uma forma bastante elegante de não assumirmos responsabilidade pelo que somos e, sobretudo, pelo que fazemos.

A questão não é se temos demónios. Toda a gente os tem. A questão é o que fazemos com eles: se os usamos para criar algo genuíno, ou se apenas os exibimos como prova de que somos pessoas interessantes.

Porque, como diria o outro — e com o ar de quem percebe do assunto —, há coisas que não se resolvem com filtros.

Fica a reflexão. Para minha e, mais uma vez, vossa também.

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