Às vezes
Sim, às vezes é simplesmente uma questão de decidirmos não fazer mais questão. Não é desistência, nem sequer fraqueza, longe disso. É o reconhecimento sóbrio de que há lugares onde, por mais que tentemos, simplesmente não caberemos. E está tudo bem, é mesmo assim.
Há uma estranha clareza no momento em que paramos de insistir e decidimos mudar o foco e seguir. Esta clareza não tem origem na raiva ou na mágoa, vem do silêncio, precisamente quando percebemos que o esforço de caber onde não somos queridos tem um custo demasiado alto: o de nos perdermos a nós próprios.
E sair assim, sem olhar para trás, não é indiferença. É lucidez. É perceber que o nosso lugar não se conquista à força, não se mendiga e não se negocia. Ou existe, ou não existe. E quando não existe, insistir não o cria — apenas nos desgasta.
Há quem chame a isto abandono, mas eu chamo-lhe higiene.
Porque o contrário — ficar, insistir, tentar — tem um nome mais difícil de pronunciar: digamos, por isso, que é a erosão lenta de quem somos. E essa, essa sim, é cara demais.
Por isso, às vezes, o acto mais assertivo que podemos praticar é exactamente este: levantar, sair e seguir para onde somos queridos. Não por vingança. Não por mágoa. Simplesmente porque é lá que faz sentido estar.

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