A arte de pisar ovos
Um destes dias, numa daquelas conversas que dizem ser como as cerejas, em que uma puxa a outra, e quando damos conta já não vislumbramos o ponto de partida, tal a dimensão do encadeamento de temas até chegarmos a determinado ponto, alguém me dizia, do alto daquela sapiência que só a prática de uma vida plena, em que não faltaram altos e baixos, confere: "a vida é muito curta para passarmos os dias a pisar ovos, só para não desagradar a adultos mal resolvidos."
Na altura, não lhe dei grande importância, mas a verdade é que fiquei com a frase a ecoar na memória, como se precisasse de tempo para a processar e compreender na sua plenitude. Frases assim, em regra, não pedem licença para entrarem em nós e se instalarem no nosso subconsciente — talvez por carregarem em si uma verdade incómoda: quantos de nós passamos os dias a calibrar o que dizemos, a medir o que fazemos, a antecipar reações, a curvar-nos, em vénias preventivas, não por educação ou respeito, mas por medo? Medo de quê, exactamente? De desagradar a quem, no fundo, não está resolvido consigo próprio e, por isso, precisa que os outros andem em bicos de pés à sua volta?
Quando assim é, pisar ovos é um trabalho a tempo inteiro. Exige atenção constante, energia que podia estar a ser usada noutro sítio, e uma dose generosa de autotraição. Porque cada ovo que pisamos, ainda que com cuidado, é um pedaço nosso que engolimos em silêncio, a seco.
A vida, já aqui tenho partilhado, é, de facto, curta. Demasiado curta para perdermos o nosso tempo a gerir as fragilidades não resolvidas de quem devia ter feito esse trabalho por conta própria. Cada um tem as suas batalhas interiores — e isso, meus car@s, é humano e legítimo —, mas transformá-las em campo minado para os outros é, no fundo, um abuso, ainda que discreto, daqueles que não têm nome mas, infelizmente, deixam marcas para a vida.
Por isso, pequen@s gafanhot@s, às vezes a coisa mais sensata que podemos fazer é simplesmente parar de pisar ovos. Não com estrondo, nem com declarações em alta voz. Apenas deixando de andar com esse cuidado todo, para ver o que acontece.
E lembrem-se, quando somos queridos de verdade, não precisamos de andar a pisar ovos.

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