A vida como arte
Carl G. Jung, Cartas 1946–1955 (carta ao Dr. Allen Gilbert, 20.04.1946; Ed. Vozes, 2002). |
É verdade, Jung escreveu isto em 1946, numa carta a um médico norte-americano. Não num tratado ou numa conferência, mas numa carta. Naquele tipo de escrita que acontece sem qualquer armadura, numa conversa que, talvez por isso, acaba por nos dizer mais do que os livros. E o que disse, assim, com a simplicidade de quem não precisa de impressionar ninguém, é uma das coisas mais verdadeiras que já li sobre a vida e o que é vivê-la.
Efetivaemnte, a vida não corre sobre trilhos certinhos, não é um produto acabado, não vem com um manual de instruções, não existe uma fórmula comprovada para o seu sucesso e não há garantia de resultado algum. Há, isso sim, a necessidade permanente de improvisar, de ajustar, de tentar e, mais importante, de aceitar que errar faz parte do processo, não como falha de carácter, mas como condição inevitável de quem está genuinamente a aprender — e estamos todos, a tempo inteiro, acreditem.
Pensemos, por um momento, na arte. Um escultor que começa um bloco de mármore sabe o que quer fazer — ou julga saber. Mas o mármore tem as suas próprias nervuras, as suas resistências, os seus ângulos imprevistos. O resultado final raramente é o que estava no esboço inicial. E isso, longe de ser uma derrota, é exatamente o que faz da obra algo vivo. A rigidez produz cópias. A capacidade de adaptar produz criação e originalidade.
Com a vida passa-se o mesmo. Há quem passe anos a tentar encaixar a existência numa forma que previamente decidiu ser a correta para si — a carreira certa, a família certa, o percurso certo — e que se vai tornando cada vez mais tensa à medida que a vida, com as suas inconveniências e imprevisibilidade características, recusa materializar esse desejo. E há quem aprenda, mais cedo ou mais tarde, que a arte de viver não se trata de controlar o resultado, mas de desenvolver a capacidade de responder ao que vai acontecendo, com presença, honestidade e, na medida do possível, alguma graça.
As dificuldades, como nos diz Jung, existem precisamente porque não sabemos de antemão. Mas repare-se bem no que ele nos está a dizer: não é uma lamentação. É quase uma libertação. Se soubéssemos sempre como fazer as coisas, a vida seria outra coisa — mais eficiente, talvez, e previsível, certamente, mas vazia daquilo que lhe dá peso e sentido. São as dificuldades que nos obrigam a crescer. São os percursos não planeados que nos levam a sítios que nunca poderíamos ter escolhido porque, muitas vezes, nem sabíamos que existiam.
Há uma diferença, convém dizê-lo, entre aceitar a imprevisibilidade da vida como desculpa para a passividade e aceitá-la como convite à participação ativa nela. Jung não está a dizer que nos sentemos e esperemos pelo que vier. Está a dizer que nos equipemos melhor para o que vier — com autoconhecimento, com flexibilidade, com a humildade de quem sabe que não tem tudo resolvido e que isso, afinal, não é nenhuma desonra ou vergonha — é só o resultado da vida e das nossas vivências.
Aqui entre nós, a arte mais difícil é sempre a de viver. Não porque nos faltem as ferramentas, mas porque o material com que trabalhamos — o tempo, as relações, as escolhas e as perdas — é sempre diferente do que esperávamos. E o artista que insiste em que o material se comporte como ele decidiu, em vez de dialogar com ele, raramente produz algo digno de nota.
Talvez a pergunta importante aqui não seja "porque é que isto é tão difícil?", mas antes: "o que é que este momento me está a ensinar que eu ainda não sei?" É uma pergunta mais incómoda, eu sei. Mas é também, provavelmente, a mais honesta.
Fica a nota. Para minha e, mais uma vez, vossa reflexão, também.

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