"Cape Fear", ou quando o passado nos bate à porta
O passado cobra
O cinema, a televisão e, mais recentemente, o advento do streaming têm destas coisas, fazendo-nos chegar, no formato de filme e/ou de série, obras que são mais do que mero entretenimento. Apresentam-se numa espécie de jogo entre o verosímil e o real que, aqui entre nós, tem a capacidade de nos fazer pensar. Tenho para mim que estas obras da 7.ª Arte, tal como a boa literatura, pintura e escultura, chegam a nós no momento certo ou, dependendo do estado de espírito, no momento completamente errado... e ficam, para nos fazer pensar, uns mais tarde e outros mais cedo. Cape Fear, a nova série, disponível na Apple TV, é uma dessas obras.
Uma história com várias vidas
Cape Fear tem uma genealogia longa. O ponto de partida é o romance The Executioners de John D. MacDonald, publicado em 1957, onde um procurador vive aterrorizado por um ex-condenado que acredita ter sido injustamente condenado por si. A primeira adaptação cinematográfica desta obra literária chegou ao grande ecrã em 1962, com Gregory Peck e Robert Mitchum, nos principais papéis, num duelo seco, tenso e classicamente noir, muito ao estilo do que se ia fazendo nos policiais da época.
Contudo, foi Martin Scorsese quem transformou o material literário adaptado ao cinema em algo, pelo menos para mim, adolescente à data, visceralmente insuportável e até assustador. No seu Cape Fear de 1991, De Niro, que veste a pele de Max Cady, não é apenas ameaçador — é uma verdadeira força da natureza, implacável, marcado por uma religiosidade puritana intensa que aprofunda a complexidade da personagem, numa luta não apenas para se vingar, mas para fazer o mundo pagar por cada pecado que ficou por confessar. Nick Nolte, que, por sua vez, protagoniza o advogado atormentado pelo peso do passado, não é a vítima inocente da versão cinematográfica de 1962, indo muito mais além desta. É um homem culpado que tenta gerir a culpa, em vez de a resolver de uma vez por todas. E é exactamente aqui que tudo se complica e o enredo se adensa, prendendo-nos, do primeiro ao último minuto, ao grande ecrã.
A nova série disponível na Apple TV retoma, assim, esta tradição, atualizando o universo e aprofundando as personagens, mas mantendo o núcleo original do enredo: uma ameaça que vem do passado e que só tem força porque o passado nunca foi verdadeiramente resolvido e encerrado.
Os esqueletos que ficaram na cave
Há uma metáfora que Cape Fear, em todas as suas versões, usa de forma quase cirúrgica: a de que os esqueletos que guardamos na cave não ficam sossegados para sempre. Podem estar silenciosos durante anos, décadas até, mas um dia sobem as escadas e vêm ter connosco. E quanto mais tempo demoramos a abrir a porta, mais força ganham do outro lado na sua caminhada até nós.
Não estou, com isto, a falar de criminosos tatuados a boiar num rio e da história de vingança que a série, e os filmes que a antecederam, nos apresenta. Estou a falar de decisões adiadas, de conversas que nunca aconteceram, de verdades que escolhemos não dizer, do mal que, mesmo sem intenção, fizemos e fingimos que o tempo tratou de apagar. O problema é que o tempo não apaga nada. Arquiva. E os arquivos, mais cedo ou mais tarde, reabrem-se — é caso para dizer: o karma é tramado.
No fundo, a psicologia diz-nos o mesmo que a boa ficção sempre disse: o não resolvido não desaparece, apenas muda de forma. Transforma-se em ansiedade, em padrões repetidos, em relações que explodem por razões que não conseguimos explicar, entre tantas outras manifestações do que foi sendo empurrado para debaixo do tapete. É certo que o Max Cady, o tal ex-condenado, é apenas ficcional. Mas o peso do que não enfrentámos, e decidimos carregar pela vida fora, é absolutamente real.
O que a série nos devolve
Ver Cape Fear é, assim, pelo menos para mim, um exercício estranho e útil. Entretém, assusta e prende. Mas se olharmos com atenção, também pergunta: o que é que tu deixaste por resolver? O que é que está à tua espera, algures, com a paciência infinita das coisas que sabem que o tempo joga a seu favor?
Vale a pena ver a série e as duas versões cinematográficas anteriores. E vale, talvez ainda mais, a pena pensar e reflectir para além do enredo ficcional — às vezes dá jeito.

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