"Cape Fear", ou quando o passado nos bate à porta

O passado cobra

O cinema, a televisão e, mais recentemente, o advento do streaming têm destas coisas, fazendo-nos chegar, no formato de filme e/ou de série, obras que são mais do que mero entretenimento. Apresentam-se numa espécie de jogo entre o verosímil e o real que, aqui entre nós, tem a capacidade de nos fazer pensar. Tenho para mim que estas obras da 7.ª Arte, tal como a boa literatura, pintura e escultura, chegam a nós no momento certo ou, dependendo do estado de espírito, no momento completamente errado... e ficam, para nos fazer pensar, uns mais tarde e outros mais cedo. Cape Fear, a nova série, disponível na Apple TV, é uma dessas obras.


Para quem cresceu com o cinema dos anos 1990 e ainda guarda na memória a imagem de Robert De Niro, no papel de Max Cady, com o corpo tatuado de versículos bíblicos, a cabeça rapada e um sorriso que não prometia nada de bom, a série é um regresso a uma história que nunca foi bem sobre um criminoso à solta, mas antes sobre a questão da culpa, da cobardia e, mais importante, daquilo que fazemos, ou não, com os erros que vamos acumulando nesta vida.

Uma história com várias vidas

Cape Fear tem uma genealogia longa. O ponto de partida é o romance The Executioners de John D. MacDonald, publicado em 1957, onde um procurador vive aterrorizado por um ex-condenado que acredita ter sido injustamente condenado por si. A primeira adaptação cinematográfica desta obra literária chegou ao grande ecrã em 1962, com Gregory Peck e Robert Mitchum, nos principais papéis, num duelo seco, tenso e classicamente noir, muito ao estilo do que se ia fazendo nos policiais da época.

Contudo, foi Martin Scorsese quem transformou o material literário adaptado ao cinema em algo, pelo menos para mim, adolescente à data, visceralmente insuportável e até assustador. No seu Cape Fear de 1991, De Niro, que veste a pele de Max Cady, não é apenas ameaçador — é uma verdadeira força da natureza, implacável, marcado por uma religiosidade puritana intensa que aprofunda a complexidade da personagem, numa luta não apenas para se vingar, mas para fazer o mundo pagar por cada pecado que ficou por confessar. Nick Nolte, que, por sua vez, protagoniza o advogado atormentado pelo peso do passado, não é a vítima inocente da versão cinematográfica de 1962, indo muito mais além desta. É um homem culpado que tenta gerir a culpa, em vez de a resolver de uma vez por todas. E é exactamente aqui que tudo se complica e o enredo se adensa, prendendo-nos, do primeiro ao último minuto, ao grande ecrã.

A nova série disponível na Apple TV retoma, assim, esta tradição, atualizando o universo e aprofundando as personagens, mas mantendo o núcleo original do enredo: uma ameaça que vem do passado e que só tem força porque o passado nunca foi verdadeiramente resolvido e encerrado.

Os esqueletos que ficaram na cave

Há uma metáfora que Cape Fear, em todas as suas versões, usa de forma quase cirúrgica: a de que os esqueletos que guardamos na cave não ficam sossegados para sempre. Podem estar silenciosos durante anos, décadas até, mas um dia sobem as escadas e vêm ter connosco. E quanto mais tempo demoramos a abrir a porta, mais força ganham do outro lado na sua caminhada até nós.

Não estou, com isto, a falar de criminosos tatuados a boiar num rio e da história de vingança que a série, e os filmes que a antecederam, nos apresenta. Estou a falar de decisões adiadas, de conversas que nunca aconteceram, de verdades que escolhemos não dizer, do mal que, mesmo sem intenção, fizemos e fingimos que o tempo tratou de apagar. O problema é que o tempo não apaga nada. Arquiva. E os arquivos, mais cedo ou mais tarde, reabrem-se — é caso para dizer: o karma é tramado.

No fundo, a psicologia diz-nos o mesmo que a boa ficção sempre disse: o não resolvido não desaparece, apenas muda de forma. Transforma-se em ansiedade, em padrões repetidos, em relações que explodem por razões que não conseguimos explicar, entre tantas outras manifestações do que foi sendo empurrado para debaixo do tapete. É certo que o Max Cady, o tal ex-condenado, é apenas ficcional. Mas o peso do que não enfrentámos, e decidimos carregar pela vida fora, é absolutamente real.

O que a série nos devolve

Ver Cape Fear é, assim, pelo menos para mim, um exercício estranho e útil. Entretém, assusta e prende. Mas se olharmos com atenção, também pergunta: o que é que tu deixaste por resolver? O que é que está à tua espera, algures, com a paciência infinita das coisas que sabem que o tempo joga a seu favor?

Vale a pena ver a série e as duas versões cinematográficas anteriores. E vale, talvez ainda mais, a pena pensar e reflectir para além do enredo ficcional — às vezes dá jeito.


Mais um breve apontamento, pessoal e transmissível, para minha e vossa reflexão, também.

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