E o verão começa hoje...

Hoje é o primeiro dia do verão. O sol decide ficar mais tempo. Como se soubesse que há dias assim, em que precisamos de luz extra, não para ver melhor o que está à nossa volta, mas antes o que está em nós.

E, talvez por isso, inspirado e iluminado pelo primeiro dia de verão, quero aproveitar para te agradecer.

Não com flores ou um qualquer discurso ensaiado. Com palavras a sério, daquelas que não ficam bem em cartões de parabéns mas que, ditas no sítio e no momento certo, pesam o suficiente para chegar onde têm de chegar.

Obrigado por não teres desistido. Sim, tu. Naquelas noites em que o chão desapareceu debaixo dos pés e o tecto decidiu acompanhá-lo. Quando o mundo ficou pequeno demais — e barulhento de mais — e a única companhia disponível eras tu mesmo, os teus medos e uma fé que teimava em não apagar, mesmo a contra-vento. Obrigado por teres ficado. Obrigado por teres escolhido abraçar cada dia como uma nova oportunidade, apesar dos pesares, e a levantares-te de cabeça erguida, como se fosse o primeiro dia do resto da tua vida (lá estás tu outra vez com a música ligeira nacional, desta feita temos o Sérgio Godinho).

Há uma coragem que ninguém vê. Não aparece nas redes sociais, não tem audiência e não recebe aplausos. É a coragem de pegar nos cacos, um a um, sozinho, e decidir que ainda dá para fazer qualquer coisa com eles. Não o que era antes — isso é impossível e, aqui entre nós, seria uma pena. Mas algo diferente. Algo que só podia existir depois de tudo o que aconteceu. Algo que tem a tua forma exacta, com as marcas todas incluídas, porque as marcas que ficaram fazem, e farão sempre, parte de ti.

E depois — atenção, que esta é a parte boa — a vida decide surpreender-te. Não toda de uma vez, porque isso seria demasiado fácil e suspeito. Devagar. Um detalhe aqui, uma conversa ali, uma manhã que sabe melhor do que as anteriores, sem razão aparente. E começas a perceber que o caminho não estava traçado em lado nenhum à tua espera. Estavas tu a fazê-lo, passo a passo, muitas vezes sem saber exactamente para onde ias. E chegaste aqui.

Aqui é um bom sítio, deixa-me que te diga.

Hoje começa o verão. O solstício é, por definição, o dia mais longo do ano — o dia em que o sol decide dar o seu melhor, sem reservas, sem guardar nada para depois. Há qualquer coisa de motivacional nisso que eu recuso ignorar. Porque é precisamente isso que eu te proponho: dá o teu melhor. Não amanhã. Não quando estiver tudo resolvido, o cenário for perfeito ou a banda sonora de fundo estiver afinada. Hoje. Agora. Com o que tens, com o que és, com os cacos recolhidos e as cicatrizes que ficaram.

O presente é a única casa que realmente existe. O passado já foi, e já fez o que tinha a fazer — incluindo ensinar-te o que precisavas de aprender. O futuro virá, e com ele o que ainda nem sequer imaginas. Mas o agora — este segundo, este dia, este primeiro dia de verão — é teu. Completamente.

Usa-o bem. Vive-o inteiro. E, de vez em quando, faz o que o sol faz hoje: fica um pouco mais tempo.

Tens merecido e mereces, como bem sabes.

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