À vista

Às vezes estava mesmo à vista. A névoa não era exterior, era nossa. E quando o ciclo fecha, ela levanta. Não gradualmente. De uma assentada, naturalmente. E percebemos, de súbito, com aquela mistura estranha de alívio e de ligeira vergonha-própria, que o problema nunca foi a visibilidade. Éramos nós que, afinal, não estávamos prontos para ver.

Há quem chame a isto inocência instintiva e, até mesmo, negação. Mas existe também quem prefira não chamar-lhe nada e, pura e simplesmente, seguir em frente, que é também uma forma válida de lidar com qualquer assunto. O nome que lhe damos, no fundo, importa menos do que o reconhecimento do fenómeno: às vezes precisamos de tempo para ver o que já estava ali, não porque sejamos cegos, mas porque o momento certo para ver uma coisa não é necessariamente o momento em que ela aparece.

O universo — ou Ele — trabalha de formas misteriosas. Por isso, os ciclos encerram-se ao seu ritmo, não ao nosso. E quando fecham, encerram por inteiro e de uma só vez. Sem negociação, aviso prévio ou cerimónia. Faz acontecer, simplesmentequando entende que assim tem de ser (pronto, lá estás tu com a pop portuguesa, desta feita dos anos 1990... agora é Pedro Abrunhosa).

O que fica, quando a névoa levanta, não é sempre confortável. Às vezes é revelador de formas e situações que preferíamos evitar. Mas é, quase sempre, necessário. Porque ver com clareza, ainda que tardiamente, mesmo que doa, é sempre preferível a continuar a olhar cegamente — como nos dizia esse enorme vulto da literatura portuguesa e mundial do século XX, José Saramago, e bem: "Se [puderes] olhar, vê. Se [puderes] ver, repara."

Mais uma nota, para minha e vossa reflexão, também.

P.S. — Esta nota, ou reflexão, é daquelas que "(...) [nasce] dessa matéria muito concreta: o real, com as suas ruturas, cansaços, fé e espantos (...)". Um dia, quem sabe, talvez conte a história. Mas, por agora, vamos deixá-la assim, no tal universo pessoal, só que com o selo de intransmissível.

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