O impossível é só uma questão de perspectiva

Não é fácil. Nunca foi. E provavelmente nunca será. Há momentos em que a vida parece ter um talento particular para nos empurrar precisamente quando já estamos com os joelhos no chão, como se quisesse testar, com uma insistência quase pessoal, até onde vai a resistência de cada um.

Há noites que não têm fim aparente. Há batalhas que se travam em silêncio, nas trincheiras mais fundas e mais solitárias de cada um, longe de qualquer plateia, sem aplausos e sem reconhecimento. Também existe, é verdade, maldade com que não contávamos e vinda de quem menos esperamos, dificuldades que nos apanharam desprevenidos, e um ou outro momento em que a única companhia disponível era a nossa própria sombra. E, ainda assim, ficámos. Perseverámos. Mantivemos o coração no lugar certo, mesmo quando tudo à volta parecia conspirar contra nós.

E depois, às vezes, acontece qualquer coisa de inesperado. Não de forma dramática, nem com fanfarra. Acontece de forma discreta, quase envergonhada, como se a vida quisesse pedir desculpa pelos atrasos, sem fazer demasiado alarde. Um encontro, uma oportunidade, uma conversa, uma manhã diferente de todas as outras. E percebes, de repente, que estás exactamente onde tens de estar. Não onde esperavas. Não onde planeaste. Mas onde tens de estar — e, acreditem, há uma diferença abismal entre as duas coisas.

O impossível, percebe-se nesses momentos, é quase sempre uma questão de perspectiva. Não porque o sofrimento não tenha sido real — foi, e muito. Não porque as batalhas tenham sido fáceis — não foram, e há cicatrizes que ficam connosco para o provar. Mas porque o ângulo a partir do qual olhamos para as coisas tem uma influência enorme no que conseguimos ver. E quando a perspectiva muda — quando a vida decide, por razões que nem sempre compreendemos, inclinar a luz de outro modo —, o que parecia um muro revela-se, afinal, uma porta. O que parecia um fim revela-se uma curva, numa estrada que continua, e ainda bem.

Há quem chame a isto Deus. Outros chamam-lhe universo, destino, karma ou,  simplesmente, sorte de quem persistiu, apesar dos pesares, quando devia ter desistido. A designação aqui é, no fundo, menos importante do que o reconhecimento: existe qualquer coisa, maior do que nós, que não dorme. Que observa. Que, a seu tempo e à sua maneira, repõe um equilíbrio que às vezes tarda tanto que chegamos a duvidar da sua existência.

O que parece fazer a diferença, olhando para trás, não é a ausência de quedas. É o que se fez no chão: se ficámos ali a catalogar as injustiças ou se, devagar, tratámos de nos levantar. Se guardámos rancor ou se, a custo, mantivemos o coração puro. Se esperámos que alguém viesse resolver o que era nosso para resolver, ou se, sem esperar reconhecimento nem exigir reciprocidade, fomos fazendo o nosso caminho e ajudando quem fomos encontrando nele.

Não é fácil. Mas, por vezes, a vida decide surpreender-nos pela positiva. E quando isso acontece, meus caros, vale a pena estar disponível para receber o que de bom nos está reservado. 

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