Da proximidade do fim…

A História ensina‑nos que os acontecimentos, ainda que com sujeitos e em épocas diferentes, tendem a repetir‑se, como se o Homem não aprendesse com o passado – o que, infelizmente, é uma realidade.

Em vésperas do fim, os impérios, e também as organizações, tendem a tomar medidas e a fazer opções sem qualquer orientação estratégica ou sentido, que, no fim do dia, apenas os empurram para o seu destino final: o precipício. O foco passa a ser a sua própria salvação e, toldadas pelo medo do fim, em pânico, entram numa espiral de autodestruição.

Foi assim também em Alexandria, no final da Antiguidade Clássica: mais do que um fogo acidental, a biblioteca ardeu lentamente na soma de guerras, fanatismos e decisões políticas que sempre sacrificam o conhecimento em primeiro lugar. Cada pergaminho queimado era uma lei não escrita da humanidade a desaparecer, um pouco como hoje, quando reformas apressadas destroem arquivos, desmantelam instituições e apagam saberes em nome de uma urgência fabricada, sabe-se lá por quem e para que fins.

O paralelo que procuro fazer é simples e, também, incómodo: quando o centro treme, não se queimam apenas edifícios; queimam‑se critérios, narrativas, história e, não menos importante, o próprio sentido de justiça. Talvez a verdadeira medida da saúde de um Estado, ou de uma organização, não esteja na sua riqueza e poder, mas na forma como protege as suas “bibliotecas”: escolas, arquivos, universidades e recursos (pessoas), que guardam, teimosamente, a memória contra o fogo da ignorância.

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