Domingo de Ramos: Perfeição digital vs. imperfeição humana
Domingo de Ramos, tempo quaresmal, mote para reflexões — ainda que de bolso, como esta. Não obstante, assumo o risco.
Vivemos numa época em que cada vez há menos momentos diferidos. Tudo é partilhado no momento, como se estivéssemos dentro de um espetáculo permanente, numa experiência imersiva em que o real e o digital andam de mãos dadas, onde, mais do que a verdade, o que realmente parece importar é a sua possibilidade.
Os ecrãs dos nossos smartphones tornaram-se extensões do nosso corpo. Gravamos, editamos e publicamos para construir uma perfeição verosímil, suficientemente credível, para que outros acreditem na imagem de vida que vendemos, quase sempre perfeita. Mas, na maioria dos casos, essa imagem está profundamente desfasada do real — e é justamente essa distância que nos vai tornando menos humanos, humildes e capazes de olhar para as nossas imperfeições, característica essencial da condição humana.
E, no entanto, é aí que reside a verdade: não fomos feitos para a perfeição (e ainda bem!). Foi por isso, assim nos diz o Novo Testamento, que aquele Homem simples, com o ofício de Carpinteiro, oriundo da Galileia, se entregou na Cruz para abrir as portas da Eternidade a toda a Humanidade, apesar das imperfeições desta.
Tenho dito.

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