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Pois é, já não passava por aqui há uns tempos. Mas, como disse, voltaria sempre que a espuma dos dias justificasse uma nova entrada neste meu, mas também vosso, Diário, merecedora, claro está, de mais uma nota pessoal e transmissível.
Hoje, fui ver a adaptação cinematográfica de A Odisseia, pela mão de Christopher Nolan, e saí da sala com uma ideia simples: ninguém regressa verdadeiramente a casa.
Regressamos a ruas conhecidas, a vozes que reconhecemos, a mesas onde ainda parece haver lugar para nós. Mas regressamos diferentes. E, por isso, também aquilo que nos espera já não é exatamente o mesmo. O tempo não é apenas o que passa enquanto estamos longe, é aquilo que muda em nós enquanto tentamos sobreviver ao caminho.
Talvez seja essa a razão pela qual a história de Ulisses, ou Odisseu, continua a falar-nos. Não pela guerra, pelos monstros ou pelos deuses caprichosos. Fala-nos porque todos conhecemos, em alguma medida, a experiência de nos perdermos de nós próprios. Há viagens que ninguém vê: a travessia de uma perda, de uma escolha, de um cansaço prolongado, de uma versão da vida que deixou de servir.
E há regressos que exigem coragem. Não a coragem grandiosa de quem enfrenta o mar, mas a de quem volta a olhar para a própria vida e pergunta: ainda me reconheço aqui?
Nolan dá-nos escala, ruído, perigo e destino. Mas o que fica, pelo menos em mim, é a dimensão silenciosa da história: a vontade de voltar não a um sítio, mas a uma espécie de verdade interior. Àquilo que fomos antes de nos distrairmos tanto de nós.
No fundo, não tenhas pressa. Afinal, onde tens de ir, se não ao encontro de ti mesmo?
Talvez seja esse o destino mais difícil. E, aqui entre nós, o único que importa.

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