Chegar a si próprio

Vivemos num mundo acelerado, numa sociedade do imediato. Quer-se tudo para ontem, como se a pressa fosse uma forma de valor e a demora uma espécie de falha moral. A verdade, porém, é mais simples do que isso e, por vezes, mais incómoda também. Não é a velocidade que nos aproxima de quem somos. É a atenção.

Há uma certa ingenuidade coletiva em imaginar que acumular movimentos, respostas e resultados nos leva mais depressa ao essencial. Mas o essencial raramente vive ao ritmo da urgência. O que importa não se conquista a correr. Reconhece-se. E reconhecer exige silêncio, demora, paciência e uma disposição rara para escutar o que ainda não sabe dizer o seu nome.

Talvez por isso tanta gente se desgaste a procurar fora o que, no fundo, só se encontra dentro. Não por uma qualquer mística de manual, mas porque há um limite para o que o mundo exterior nos pode dar. Pode oferecer ruído, distração e até consolo. Mas o lugar a que temos de chegar continua a ser, no fim de contas, o mesmo: nós próprios. E esse caminho, sendo o mais curto, é também o mais exigente.

Não vale a pena fingir outra coisa. A pressa promete muito e entrega pouco. A espera, quando é lúcida, ensina mais. Ensina a distinguir o que nos move do que apenas nos agita. Ensina a ver que nem toda a demora é perda, nem toda a chegada é vitória. E ensina, sobretudo, que há percursos que só fazem sentido quando deixamos de os tratar como corrida.

Por isso, talvez a pergunta certa não seja para quê tanta pressa, mas para quê tanta fuga. Porque o caminho, se for verdadeiro, não nos afasta de nós. Leva-nos, com uma discrição quase irritante, precisamente até aí. Ao lugar onde já estávamos, sem termos sabido ver.

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