Outro ritmo...
"Não te desvies do teu caminho. (...) e em todos os pensamentos, certifica-te de que compreendes."
— Marco Aurélio, Meditações, Livro IV (22), pág. 59, Ideias de Ler, 2025.
Às vezes, é preciso saber parar, refletir e escolher, com lucidez, os desafios que decidimos abraçar. É isso que sucede agora, e faço-o sem drama, mas também sem fingir que a decisão é trivial.
Para quem não sabe, os últimos anos foram especialmente exigentes para mim, tanto a nível pessoal como profissional. Este espaço, que é meu e também vosso, foi muitas vezes um escape, uma espécie de válvula de descompressão que me permitiu, através de um alter ego, explorar o lado inverso do verso que sou. Aqui pude ser mais contemplativo, mais irónico, mais livre do que a vida quotidiana normalmente me permite. Foi, no fundo, um lugar de respiração num tempo que, por vezes, tinha pouco, ou quase nenhum, espaço para isso.
"Mas onde queres chegar, Miguel?", perguntam vocês, com toda a justeza, e a pergunta merece uma resposta direta e objetiva. Assumi, recentemente, novas responsabilidades a nível profissional, académico e também pessoal. Estas responsabilidades obrigam a que não consiga continuar a passar por aqui com a mesma frequência com que o tenho feito. Isso significa encerrar esta actividade? Não, de todo. Significa apenas ajustar o ritmo à realidade que se impõe, sem prometer o que não poderei cumprir.
É tempo, portanto, de me concentrar em mim e nos desafios que tenho pela frente, e são três, essencialmente. O primeiro é dar corpo e seguimento à concretização do projeto profissional que iniciei, criando as condições necessárias para a materialização da visão organizacional que esteve na génese da minha seleção para a posição que assumi recentemente, e que exigirá dedicação acrescida ao longo dos próximos três anos. Trata-se de um desafio sério, de serviço público e com responsabilidade acrescida, que pede presença, energia e continuidade de pensamento constantes.
O segundo é dar seguimento ao meu projecto de doutoramento, recentemente defendido e aprovado na sua versão final. Esta frente exigirá grande dedicação, tanto em termos de trabalho de investigação como de produção científica associada, culminando, se tudo correr como planeado, numa tese a entregar e defender nos próximos dois anos e meio. É um compromisso que escolhi e abracei de forma consciente, sabendo que vai exigir tempo, disciplina e, sobretudo, foco.
O terceiro desafio e, aqui entre nós, talvez o mais importante de todos, é cuidar de mim, em todas as variantes que integram a minha condição humana. Porque as duas frentes anteriores serão exigentes, e a vida, felizmente, não se esgota apenas no trabalho ou na produção académica. Há um equilíbrio a preservar, e sei, por experiência própria, em particular na última década, que descuidá-lo tem um custo que não estou disposto a voltar a pagar.
Por isso, nos próximos tempos, vamo-nos encontrando por aqui, ainda que com intermitências, sempre que o tempo e a vida o permitirem. Este espaço não desaparece. Apenas respira de forma diferente, ao ritmo que a nova fase exige. Continuarei a escrever quando tiver algo genuíno para partilhar, e não por obrigação de calendário. Até já e obrigado a todas e todos!

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