Ermelo, a cada regresso, um novo espanto
Canta a sabedoria popular que "Mesa acabada, companhia desfeita", e assim foi... terminado o almoço do dia de Natal, parti, como já é hábito quando estou por aqui no meio das fragas de Ermelo, para a minha caminhada, por caminhos que me conduzem a paragens já conhecidas e de belas vistas.
Ermelo, em especial, nesta altura do ano, envolve-nos, com as suas paisagens maronesas despidas, aqui e ali, entrecortadas pela vegetação caraterística das terras do Alvão, numa certa melancolia só alcançável quando estamos a sós com a natureza. A cada caminhada, uma (re)descoberta, é como a boa literatura e/ou pintura, a cada regresso que fazemos, uma nova leitura e resignificação do que lemos/vemos (diria que nas artes cénicas, i.e. teatro e cinema, também sucede o mesmo). E foi o que aconteceu, caminhando por trilhos conhecidos, dei por mim a (re)contemplar e a (re)apreciar as belas paisagens que há tanto conheço e nas quais, a cada regresso, vou encontrando, aqui e ali, novos encantos.
Mas a grande atração destas terras são mesmo as imponentes Fisgas de Ermelo, que esse outro vulto maior da literatura portuguesa, Miguel Torga, natural destas terras para lá do Marão, cantou nos seguintes termos:
"Cá me vim debruçar também sobre o despenhadeiro das Fisgas, com os pés seguros pelos companheiros por causa das vertigens. E apreciei devidamente este misto de espanto e terror. A contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atração dos outros. Toma-se consciência, com rigor físico, das asas que nos faltam para estar à altura da máxima de Nietzsche (...)."
— Miguel Torga, Diário VIII (Ermelo, Marão, 2 de outubro de 1959)
E assim vos deixo, até já...








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